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Um presente atormentado pelo passado?

por *Márcia S.*, em 04.08.15

O meu passado não foi excelente, como falei várias vezes aqui no blog, como por exemplo AQUI. Tive momentos que preferia ter desaparecido a ter de ouvir e calar. Calar porque era fraca psicologicamente para conseguir defender-me de pessoas que não sabiam do que falavam, que pouco se preocupavam com os meus sentimentos. Sim, fui fraca, extremamente fraca! Arrependo-me disso porque, se não o fosse hoje conseguia ser uma pessoa totalmente diferente e certamente muito mais feliz. Tive dias que queria chorar e já não conseguia, já nem para isso tinha forças. Mas, quando alguém me pedia ajuda para um problema seu, aqui a tolinha arranjava as forças todas do mundo, mesmo sabendo que estava ajudar pessoas que nunca na vida abriram a boca para dizer nada em minha defesa. Como se costuma dizer eu "comia e calava" (não era agredida fisicamente, era apenas psicologicamente), e ainda chegava a casa normalmente como se nada acontecesse. Porque não falava? porque estava exausta psicologicamente, porque tinha medo (sim, medo é a palavra certa) que tudo piorasse com uma queixa da minha parte. Ninguém percebe quando me explico, mas agora pouco importa, o mal foi feito e que tem os problemas sou eu. Problemas? Sim, problemas! Passei por tudo sozinha, muitas vezes com vontade de fugir, de desaparecer. Parecia-me uma boa solução, parecia estranho pensar aquilo, mas os problemas acabavam se fugisse... para mim, ou talvez não. Viver com a dúvida se íamos ser novamente olhados e gozados era uma ideia mais dolorosa do que a ideia de fugir. Doía pensar e doía muito mais ouvir palavras tão ignorantes, fúteis e inúteis. Passei noites a chorar até adormecer. Tive pesadelos em que me seguiam a insultar-me. O pior é quando sofremos tanto que chegamos ao ponto que acreditamos em tudo que de mau acontece. Eu vivia a esconder-me. Escondia-me das pessoas. Escondia-me das palavras amargas das pessoas. Escondia-me. Por algum motivo, não sei qual, a música e a escrita foram a minha salvação. A minha salvação em todos os aspectos. A minha dor aliviava. Passar por tudo sozinha não é simples, se tivesse falado a minha dor e tristeza teriam sido também aliviadas, eu sei! Mas não falei. Com o tempo percebi que a música e a escrita me faziam feliz e para quê desejar fugir quando temos pequenas coisas que nos fazem sorrir? E, acreditem ou não, sorrir de verdade e com vontade é o melhor do mundo, é melhor que todo o dinheiro do mundo! O dinheiro não compra isso! Foi aí que a minha vida começou a mudar aos poucos, uma mudança muito lenta e com altos e baixos. Mas os maus pensamentos começavam a ser menos recorrentes. Os pesadelos foram desaparecendo.

Não deixei de ser gozada, mas a minha postura foi mudando. Eu ficava afectada, muito! Mas a minha vida era melhor. Porém, existe sempre um mas, mesmo agora estando "bem", as coisas não são lindas e maravilhosas. Quando penso neste tema ainda mexe comigo, ainda me lembro do que sentia e da-me raiva. A ansiedade não passou! Sempre que vai acontecer algo novo lá ando eu nervosa, impaciente e com os nervos à flor da pele. A minha frieza é uma constante. O gelo ainda não quebrou e estou sempre na defensiva, é inevitável e é algo a trabalhar (seja de que forma for). A minha vida mudou tanto, mas o passado ainda afecta o meu presente, não tanto como antes mas afecta. Não é uma coisa que carregue num botão e tudo passa. Consigo pensar positivo,o que para mim é tão mas tão bom. Vivo de bem comigo, mas ainda existem arestas para limar. E se consegui até agora sozinha, porque não continuar a tentar?

Calar não é mesmo a melhor maneira de resolver as coisas, pelo contrário! Só vai piorar.

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